Minha vida como pessoa surda: Elder Finhani conta sua história

Minha mãe estava grávida do meu irmão do meio, e eu tinha 1 ano e 7 meses quando adoeci com meningite. Mesmo superando a doença, fiquei com sequelas: perda auditiva de 100% em ambos os ouvidos e perda da visão do olho esquerdo.

Quando eu tinha 3 anos e 10 meses, comecei a estudar na Escola Neusa Bassetto para surdos. Passei a aprender Libras com professores e colegas surdos e, mesmo depois de concluir a escola, continuei fazendo cursos de Libras para o desenvolvimento da minha língua. Posteriormente concluí minha graduação em Recursos Humanos.

Quero compartilhar com você alguns desafios que nós, surdos, enfrentamos todos os dias.

Certa vez, fui sozinho ao hospital. Entrei e conversei com a recepcionista, expliquei que eu era surdo e tentei, por meio de gestos e estratégias, mostrar que estava com dor de garganta. Ela me pediu para aguardar o médico me chamar. Fiquei ao lado da porta da sala, prestando atenção à boca dele para fazer leitura labial e perceber quando chamasse meu nome. Quando fui chamado, entrei na sala e sinalizei: “Oi, sou surdo. Por favor, pode me dar um papel para escrever? Tenha paciência, pois o português é difícil para mim”. O médico me examinou e pediu que eu aguardasse em outra sala com a enfermeira.

Esperei, esperei e esperei. Percebi que estava demorando demais e perguntei a uma enfermeira o motivo da demora. Ela disse para eu continuar aguardando. Respondi que já estava esperando há muito tempo. De repente, vi minha mãe e meu irmão chegando ao hospital para me acompanhar. Fiquei surpreso ao saber que foi o próprio médico quem ligou para eles, informando que eu não poderia ser atendido sozinho, pois o hospital não tinha intérprete nem funcionários que soubessem ao menos o básico de Libras para se comunicar com uma pessoa surda. Fiquei muito nervoso naquele dia e pensei: 'Tenho capacidade para dirigir meu próprio carro, mas não posso ser atendido sozinho?'

Em outra situação, precisei ir a um lugar que não conhecia. No ônibus, mostrei uma mensagem ao motorista pelo celular: “Oi, sou surdo, pode me ajudar? Preciso ir a este local, pode me avisar no ponto em que devo descer?”. Porém, ele não sabia ler. Fiquei nervoso e procurei alguém dentro do ônibus que pudesse me ajudar. Vi uma mulher sentada e pedi que ela explicasse a situação ao motorista. Ela leu a mensagem no meu celular e explicou para ele. Assim, o motorista entendeu e me indicou onde eu deveria descer. Mesmo assim, a comunicação foi muito difícil.

Isso acontece na maioria dos lugares da cidade. É uma cidade que me limita, onde muitas vezes preciso estar acompanhado da família ou de amigos que conheçam Libras.

Minha vida não é fácil. Sofro muito com a falta de infraestrutura da cidade para atender pessoas surdas. Não é fácil! - Elder Finhani

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